Mais investimentos na luta contra o coronavírus

Em junho, o Programa de Combate a Epidemias avança mais uma fase na luta contra o novo coronavírus. Depois de destinar, em caráter imediato, 1.150 bolsas a cursos de pós-graduação e lançar três editais, a CAPES inicia a partir deste mês a divulgação preliminar dos projetos selecionados que desenvolveram pesquisas para o enfrentamento à COVID-19 e outras doenças infecciosas.

Serão mais 1.450 bolsas, além de fomento e custeio, para até 87 projetos que envolvem temas como epidemiologia, infectologia, microbiologia, imunologia, bioengenharia e bioinformática, fármacos, vacinas, produtos imunológicos, telemedicina e análise de dados médicos.

Lançada em abril deste ano, a iniciativa da CAPES investirá R$200 milhões em projetos de pesquisa que envolvem o estudo, a prevenção e o combate a diversas doenças que podem se tornar, ou já são, epidêmicas, principalmente a COVID-19. Serão distribuídas 2.600 bolsas de estudo em diversas áreas do conhecimento.

O programa tem duas dimensões: uma de ações imediatas, destinando bolsas diretamente aos cursos de Saúde e Exatas e, a segunda, em ações induzidas em áreas específicas. Para Benedito Aguiar, presidente da CAPES, a iniciativa valoriza ainda mais o potencial das universidades brasileiras e precisa ser aproveitado e valorizado: "Neste momento de grande apreensão na sociedade brasileira, a CAPES intensifica o seu apoio aos programas de pós-graduação”.

Como ação imediata e em caráter emergencial, a CAPES distribuiu 850 bolsas de mestrado e doutorado a 384 cursos de pós-graduação com notas 5, 6 e 7, para as áreas de Ciências da Vida. No mesmo momento, publicou o Edital número 9 de 2020, que oferece até 900 bolsas e investe R$70 milhões em até 30 projetos de pesquisa e formação de pessoal altamente qualificado para seis áreas de pesquisa.

Ainda no mês de abril, a CAPES complementou a primeira dimensão do programa: distribuiu mais 300 bolsas emergenciais, dessa vez para 246 cursos das áreas de Ciências Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar. Pela segunda dimensão, lançou mais dois editais, de números 11 e 12 de 2020. O primeiro, voltado exclusivamente para o combate à COVID-19, na área de fármacos e imunologia, e o segundo, à telemedicina e à análise de dados médicos.

Para Julival Ribeiro, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, o investimento em pesquisas como as apoiadas pela CAPES é fundamental, principalmente porque o mundo não estava preparado para enfrentar a COVID-19. “Investindo agora em projetos para estudar inquérito epidemiológico, desenvolvimento de diagnósticos e formas de tratamentos, nossas instituições estarão muito mais fortes para dar respostas às futuras pandemias”, afirmou.


Os objetivos de cada edital

EDITAL 09

Incentivo ao desenvolvimento de estudos inovadores de prevenção, diagnóstico e estratégias terapêuticas, doenças infecciosas, seus agentes e vetores, além de contribuir para o desenvolvimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para profissionais de saúde e de tecnologias e mecanismos para monitoramento, mapeamento e controle de surtos, endemias, epidemias e pandemias.

EDITAL 11

Reposicionamento de fármacos, desenvolvimento de vacinas e produtos imunobiológicos, desenvolvimento de modelos animais e ensaios in vitro para o estudo do SARS-CoV-2, protótipos de fármacos antivirais, estudos e desenvolvimento de testes rápidos para o novo coronavírus e detecção da doença em animais e as inter-relações com humanos.

EDITAL 12

Desenvolvimento de sistemas inteligentes para apoiar consultas e tomadas de decisões médicas de forma remota, processamento de imagens e reconhecimento de padrões na interpretação de exames, ferramentas para diagnóstico e técnicas de análise de dados e inteligência artificial, além de outras para monitoramento, controle e prevenção de endemias e epidemias.

ENTREVISTA: Benedito Aguiar, presidente da CAPES

Com o Programa de Combate a Epidemias, quais as expectativas da CAPES em relação aos resultados a serem apresentados pelos cursos atendidos?

Os resultados são muito promissores, considerando a grande quantidade de excelentes propostas apresentadas. Só no primeiro edital foram 549 para 30 projetos a serem beneficiados. Isso demonstra que há um grande interesse no assunto, além de um enorme potencial nas nossas universidades e centros de pesquisa que, estimulados e com o financiamento assegurado, poderão contribuir de forma significativa para o desenvolvimento científico e tecnológico do país no combate e prevenção de epidemias.

O Programa prevê investimentos ao longo de quatro anos, ou seja, as pesquisas serão desenvolvidas agora e nos próximos anos. O que se pretende com essa iniciativa além da ação imediata?

Esta ação lançada, voltada para a pandemia do coronavírus, pretende fortalecer a massa crítica existente no país em um assunto ainda não dominado cientificamente no mundo, qual seja: o combate eficaz ao SARS-CoV-2. Ela contribuirá para a produção de ciência voltada para um fim específico, no caso, o combate e prevenção à COVID-19. Em decorrência teremos ainda a formação de pessoas altamente qualificadas para atuarem, nas áreas abarcadas, com doenças infecciosas em geral e especialmente no contexto de endemias e epidemias.

Em termos de inovação para a pesquisa brasileira, quais são, na sua avaliação, as principais contribuições deste Programa?

O Programa está voltado para uma demanda específica, que é a COVID-19, e oferece um leque de possibilidades de desenvolvimento de conhecimento científico e tecnológico a partir das pesquisas a serem levadas a efeito. A inovação virá por consequência da apropriação do conhecimento científico gerado, que poderá produzir novos processos e produtos aplicáveis diretamente ao desafio de combate e prevenção à COVID-19, em muitas áreas correlatas. Isso significa, que poderá haver impactos significativos, em termos de inovação, tanto nas áreas Médica e Tecnológica quanto nas Ciências Sociais.



Todas as regiões do País já receberam bolsas

Estudantes da pós-graduação da Universidade Federal do ABC (UFABC) desenvolvem materiais que se autodesinfetam. Na Universidade Estadual de Maringá (UEM), alunos avaliam como está a manipulação dos alimentos consumidos pela população. Já na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), os estudos tentam diagnosticar a COVID-19 via raio-x, e, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), analisam medicamentos e vacinas. Com o apoio da CAPES pelo Programa de Combate a Epidemias, esses e outros cursos das áreas de Ciências da Vidas e Exatas receberam bolsas para pesquisar e encontrar soluções de enfrentamento ao novo coronavírus.

Foram 1.150 bolsas, em caráter emergencial, para 630 programas de pós-graduação. Na PUC-PR, em Curitiba, pesquisadores do curso de Informática detectaram que, a partir de radiografias, é possível diagnosticar a COVID-19. Isto pode ser um grande avanço, pois evita o uso da tomografia, um exame mais caro. “O objetivo é investigar diversas técnicas para melhorar os resultados obtidos e ter um sistema inteligente de apoio ao diagnóstico da pneumonia causada pela doença”, explica André Selleti, bolsista da CAPES.

A aplicação de métodos usados em outras terapias é foco de duas instituições do Rio de Janeiro. Na Fiocruz, os alunos do curso de Biologia Celular e Molecular analisam a eficácia, para combate à COVID-19, de medicamentos e vacinas existentes no mercado farmacológico. Já o programa de Física da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) trabalha a eficiência da radiação ultravioleta (UV) e dos raios-x para a inativação do vírus. “Dessa forma, será possível diminuir os custos da desinfecção”, explica Marcelino dos Anjos, professor da UERJ.

A inovação também está presente nas pesquisas desenvolvidas pelos programas financiados pela iniciativa da


CAPES. Na UFABC, em Santo André (SP), os pós-graduandos do curso de Nanociências e Materiais Avançados estudam componentes de matérias, ao nível do átomo, para serem utilizados na fabricação, por exemplo, de luvas, máscaras e outros equipamentos de proteção individual, com o poder de se autodesinfetarem, destruindo o novo coronavírus.

Outra preocupação das pesquisas é em relação à contaminação dos produtos que vão à mesa dos consumidores. Na UEM, o programa de Ciências da Saúde examina o uso e o conhecimento dos trabalhadores da área de alimentos sobre os Equipamentos de Proteção Individual e a manipulação de produtos. “Queremos avaliar se estão recebendo as devidas instruções para prevenção e controle da epidemia, uma vez que não terão a possibilidade de aderir ao isolamento social, ficando expostos ao risco de serem contaminados e de transmitirem a doença”, argumenta Francini Mantelo, farmacêutica e bolsista.

Na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), a pesquisa procura entender os efeitos do novo coronavírus na população idosa que vive no campo. “O objetivo é analisar os sintomas para síndromes respiratórias, COVID-19, a adesão às recomendações de isolamento social, o acesso às informações como aos serviços de teletriagem e telemedicina, assim como os reflexos do isolamento na saúde física e psíquica”, conta a fisioterapeuta e bolsista Gabriele Keller.

Por fim, para verificar os impactos da COVID-19 na população que precisou de internação, os estudantes de mestrado e doutorado em Fisioterapia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) trabalham em linhas de investigação que envolvem a recuperação da capacidade respiratória e muscular dos pacientes depois da doença. “Ficamos animados de, no meio de uma pandemia, ter a oportunidade de desenvolver pesquisa dentro do tema e com bolsas. Estamos muito interessados em fazer estudos que deem retorno para a sociedade”, afirma Patrícia Driusso, coordenadora do programa de pós-graduação.