Pesquisas do Norte, Nordeste e Sul são as grandes vencedoras da premiação

Um olhar sob um ângulo diferente para a Amazônia e a sua interação milenar com o homem. Uma abordagem sobre a relação familiar e as divisões de funções entre pai e mãe na criação dos filhos. Uma descoberta que chamou a atenção do mundo da física e foi até publicada na renomada revista britânica, Nature Physics. Essas foram as três principais pesquisas de doutorado vencedoras da 14ª edição do Prêmio CAPES de Tese.

Carolina Levis, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Beatriz Schmidt, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e José Holanda da Silva, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foram, respectivamente, os autores das três teses. Escolhidos em meio aos 49 trabalhos premiados, eles ganharam uma bolsa de pós-doutorado no exterior e os seus orientadores, R$ 9 mil para participação em eventos internacionais. O pesquisador pernambucano não compareceu à cerimônia de premiação.

“São três teses brilhantes. Todas com parceiros internacionais e financiamento de órgãos públicos de fomento”, destaca Anderson Correia, presidente da CAPES. “Esses pesquisadores farão diferença no futuro do País”, acrescenta.

Os outros 46 doutores ganharam uma bolsa para estágio de pós-doutorado em instituição brasileira, por um período de até 12 meses, e cada um dos orientadores, R$3 mil para participar de eventos acadêmicos nacionais. Também 92 pesquisas participantes receberam menções honrosas. Promovido desde 2006, este ano o prêmio recebeu 1.142 inscrições, um recorde histórico. Zena Martins, diretora de Programas e Bolsas no País da CAPES, disse que “o número de participantes poderia ser ainda maior, pois as teses são pré-selecionadas pelas instituições antes de encaminharem para concorrerem à premiação”. Acesse aqui todas as teses premiadas e que receberam menções honrosas em 2019.

Os nomes das três categorias do Grande Prêmio são uma homenagem a renomados cientistas brasileiros. Oscar Sala nomeia a categoria de Ciências Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar. Graziela Maciel Barroso empresta seu nome ao Grande prêmio de Ciências da Vida. Josué de Castro é o patrono da grande área de Humanidades. “É um coroamento de toda a trajetória de um trabalho desenvolvido ao longo do doutorado”, comenta Mauro Rabelo, diretor de Relações Internacionais da CAPES. A premiação ocorreu no dia 12 de dezembro, em Brasília.

Conheça as teses premiadas

A influência antiga do homem na Amazônia de hoje

Carolina Levis, orientada por Flávia Regina Capellotto, do Programa de Pós-Graduação (PPG) em Biologia (Ecologia) do Inpa, ganhou o prêmio Graziela Maciel Barroso. Segundo a sua tese, a ideia de que as florestas amazônicas praticamente não foram tocadas pelo homem fez com que durante décadas os estudos ecológicos ignorassem a influência dos povos do passado nas florestas dos dias de hoje.

A pesquisa apontou que há registros de atividades humanas na região há pelo menos 13 mil anos em extensas áreas consideradas intocadas: “O cultivo e o manejo da flora amazônica por sociedades antigas podem ter contribuído significativamente para os padrões ecológicos que vemos hoje”, explica Levis.

Durante a cerimônia de premiação, a pesquisadora comemorou o reconhecimento de uma década de dedicação: “Estou sentindo uma emoção enorme porque eu acho que é fantástico poder estar num momento desse, de celebrar as conquistas científicas. Estou vivendo um momento de celebrar todo o trabalho que já realizei ao longo de dez anos em que estou na ciência”.

O papel da família no cuidado da criança

A vencedora do Prêmio Josué de Castro foi Beatriz Schmidt, orientada por César Augusto Piccinini, do departamento de Psicologia da UFRGS. A pesquisa analisou o modo como as pessoas se apoiam e se coordenam em seus papéis parentais, bem como compartilham responsabilidades de cuidado com a criança. Mesmo com o crescente número de estudos desse tipo, poucos investigam famílias que não sejam norte-americanas ou europeias.

Pensando nisso seu estudo de caso foi feito com seis famílias da região Sul do Brasil, levando em consideração fatores temporais e socioeconômicos. A pesquisa foi baseada na relação dos pais na divisão dos trabalhos domésticos e com as crianças. Foram observadas a satisfação de ambos após a prática diária, as divergências ou não quanto às necessidades emocionais da criança e à disciplina, bem como a cooperação e competição entre os pais nesse processo. Essa abordagem ocorreu em três momentos: aos seis, 12 e 18 meses de vida da criança.

A análise revelou semelhanças e singularidades entre as famílias. Foi identificado um fraco compartilhamento de tarefas domésticas ao longo do tempo, mas uma forte divisão em relação aos cuidados com a criança durante os primeiros dias após o parto, com uma redução gradual ao longo dos meses. Essa desigualdade de cuidados com o filho foi maior para as famílias cujos pais são desempregados e optaram pela atenção dada pela própria mãe. Já em relação aos lares com emprego, os serviços de babá ou creche ao fim da licença-maternidade foram usados, minimizando a sobrecarga para os pais.

Sobre o Prêmio, Beatriz Schmidt ressaltou a importância da CAPES na sua trajetória acadêmica: “Para mim é uma grande honra. Penso que é algo para coroar toda a minha trajetória acadêmica, desde o período de iniciação científica ao longo do mestrado, doutorado, doutorado-sanduíche e no período de pós-doutorado, quando também fui bolsista CAPES. Então, para mim, é uma grande conquista receber esse prêmio!”.

Tese de Física é destaque no exterior

José Holanda da Silva foi o vencedor do prêmio Oscar Sala, orientado por Sérgio Machado Rezende, da Física da UFPE. Ele foi destaque no exterior ao descobrir que o fônon possui spin. Sua pesquisa foi publicada na Nature Physics, uma das mais conceituadas revistas científicas do mundo.

A movimentação de átomos dentro de um material sólido produz vibrações compostas por ondas que, na física quântica, funcionam como um fluxo de partículas, denominadas de fônons. Essa movimentação de átomos propaga calor e som nesse objeto. A ciência já tinha conhecimento que fônons oscilavam em duas direções: na horizontal e na vertical, mas nunca em um movimento rotacional dentro do próprio eixo, conhecido como spin.

A descoberta será a base para novas pesquisas numa área recente da física quântica: a spintrônica – eletrônica com spins. A expectativa é de que, num futuro próximo, novos artefatos e materiais magnéticos sejam desenvolvidos com base no transporte e na conversão de dados nos spins como, por exemplo, memórias de computador mais eficientes.

Cresce participação de mulheres premiadas

Na edição 2019, o número de mulheres premiadas aumentou. Este ano, dentre os 49 prêmios, 22 foram entregues às doutoras, quatro a mais do que as 18 vencedoras de 2018. Por região, o sudeste teve 29 agraciados, seguida do Sul (11), Nordeste (4), Centro-Oeste (3) e Norte (2). Os estados que tiveram mais vencedores foram São Paulo (18), Rio de Janeiro (7) e Rio Grande do Sul (7).

Anderson Correia, presidente da CAPES, ressaltou a importância de reconhecer e incentivar estudos de alto nível na pós-graduação e o grande momento vivido pelos pesquisadores. “Chegar até o mestrado e o doutorado e ainda ser premiado é uma alegria muito grande. Um dia que vai marcar a história de 49 pessoas, que sempre lembrarão que foram premiadas pela CAPES, sendo a melhor pesquisa do País na respectiva área de avaliação”, comemorou.

Arnaldo Lima, secretário de Educação Superior do Ministério da Educação, afirmou que as produções das teses apresentadas no Prêmio são resultados da ação conjunto do MEC com a CAPES: “A formulação e execução dessas políticas públicas tornam o País cada vez mais forte”.

Entre as instituições de ensino superior (IES), sobressaíram-se diante das demais as Universidades Estaduais de São Paulo (USP), com cinco teses premiadas, e Campinas (Unicamp), com quatro, além das Federais de Santa Catarina (UFSC) e do Rio Grande do Sul (UFRGS), também com quatro pesquisas premiadas, cada uma.

Carlos Lenuzza, diretor de Educação Básica da CAPES, lembrou que "a pesquisa tem que conversar também com a ciência, a tecnologia, mas com a praticidade. No caso da escola, da educação, queremos que desse ano resultem teses, como em alguns casos em outros anos, que tratem de objetos educacionais, situações de estudos que cheguem na vida escolar, na vida do adolescente, do jovem, das escolas e universidades brasileiras”.

Sônia Báo, diretora de Avaliação da CAPES comemorou o sucesso do evento, as conquistas do ano, e já projeta as metas para os próximos, como a nova metodologia de avaliação dos Programas de Pós-Graduação, com uma participação maior das instituições de ensino. “Foi um ano de muito trabalho. Estamos estruturando todos os indicadores e o que nós precisamos a partir de 2021 para implementarmos a avaliação multidimensional”.











CAPES amplia número de parceiros no Prêmio

Para reconhecer as melhores teses defendidas em 2018 e estimular as pesquisas de pós-graduação no País e no exterior, o Prêmio CAPES contou com parceiros antigos e novos nessa 14ª edição. Na cerimônia de premiação deste ano, foi anunciada uma nova cooperação para 2020: a Rede Nacional de Pesquisa (RNP).

Os Institutos Serrapilheira e Ayrton Senna participaram pela primeira vez do evento e concederam R$ 20 mil a cada um dos três vencedores do Grande Prêmio. Estes receberam ainda uma bolsa para realização de estágio de pós-doutorado em instituição internacional por até 12 meses. O orientador de cada pesquisa recebeu R$ 9 mil para participação em congresso internacional.

A Fundação Carlos Chagas (FCC) e a Comissão Fulbright já são parceiras da CAPES e agraciaram as teses na categoria Prêmios Especiais. A FCC, que participa pela 8ª vez, ofereceu R$15 mil às melhores teses nas áreas de Educação e Ensino e outros R$5 mil, às que tiveram menções honrosas nessas duas áreas de avaliação.

Já a Comissão Fulbright, parceira do Prêmio pelo 3º ano consecutivo, deu ao autor da tese sobre a relação entre Brasil-Estados Unidos uma bolsa de pós-doutorado internacional, no valor de US$16 mil, a ser cursada naquele país.

Instituto Ayrton Senna

Fundado em 1994, o Instituto Ayrton Senna é uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é proporcionar a crianças e jovens brasileiros oportunidades de desenvolver seus potenciais por meio da educação de qualidade. O Instituto concretiza o sonho do tricampeão de Fórmula 1, Ayrton Senna, de ajudar o Brasil a diminuir as desigualdades sociais, a partir da infância. Por ano, o Instituto capacita 60 mil educadores e seus programas beneficiam diretamente cerca de dois milhões de alunos em mais de 1.300 municípios em todo o Brasil. “Esse prêmio é muito importante para estimular o trabalho dos nossos jovens, doutorandos e mestrandos, no sentido de trabalhar e fazer teses de peso. É uma satisfação ser um dos parceiros da CAPES nesse evento”, destaca Joaquim José Soares Neto, representante do Instituto.

Instituto Serrapilheira

Lançado oficialmente em março de 2017, o Serrapilheira também é uma instituição privada, sem fins lucrativos, que financia pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica. A ideia é aumentar o interesse de jovens pela ciência. Ele atua em três áreas: Ciências Naturais, da Computação e Matemática. “A nossa opção por participar desse esforço, que a gente parabeniza a CAPES por liderar, por tantos anos já, esse Prêmio, é exatamente por valorizar a ciência desenvolvida por jovens cientistas, muito alinhado aos nossos princípios de valorizar a ciência de excelência”, ressalta Cristina Caldas, diretora da Instituição.

Fundação Carlos Chagas

Criada em 1964, esta é outra instituição sem fins lucrativos, que tem como prioridade investir em pesquisa e educação. Ela desenvolve programas de investigação sobre temas relacionados à educação, envolvendo avaliação, seleção de pessoas, políticas públicas, formação e trabalho docente, direitos sociais, relações etárias, de gênero e raciais. “Essa parceria se alinha a uma tradição da Fundação que é valorizar e reconhecer a pesquisa em educação e ensino. Nós também realizamos pesquisa. Então, nada mais importante do que reconhecer outras pesquisas que são realizadas pelas universidades no Brasil todo”, afirma Sandra Unbehaum, coordenadora da Instituição.

Comissão Fulbright

Criada em 1946, nos Estados Unidos, por uma lei do senador que deu origem ao nome do programa, James William Fulbright, a Comissão chegou ao Brasil em 1957 e oferece bolsas de estudos para o intercâmbio de estudantes de pós-graduação, professores e pesquisadores. Mais de 3.500 brasileiros já receberam bolsas para estudar no país norte-americano e quase 3 mil estadunidenses vieram para universidades no Brasil. “É o terceiro ano seguido que estamos dando esse Prêmio. A ideia é valorizar e incentivar as pesquisas ligadas ao relacionamento entre Estados Unidos e Brasil”, explica Erik Holm-Olsen, conselheiro da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil.











HISTÓRICO: Número de teses inscritas sobe de 228 para 1.142

O Prêmio CAPES de Tese reconhece os melhores trabalhos de conclusão de doutorado defendidos em programas de pós-graduação brasileiros. Criado em 2005 e entregue pela primeira vez em 2006, por ocasião das comemorações do 55º aniversário da CAPES, ele abrange todas as áreas de conhecimento que têm um representante na avaliação da pós-graduação stricto sensu. Um dos objetivos da iniciativa é aumentar a visibilidade das ações positivas e indutoras da CAPES na pós-graduação brasileira.

2006: Foram inscritas 228 teses (38 premiadas), avaliadas por 198 consultores em 56 comissões. Cada Instituição de Ensino Superior (IES) podia inscrever apenas uma tese por área. O Grande Prêmio homenageou César Lattes (Exatas), Florestan Fernandes (Humanas), e Carl Peter von Dietrich (Biológicas).

2007: Não houve entrega de Prêmio. As teses defendidas em 2006 foram premiadas em 2008.

2008: Nesse ano, 43 teses foram premiadas, dentre 417 inscritas em 2007. Foi extinta a restrição do número de inscrições por IES. A seleção envolveu o trabalho de 207 consultores em 51 comissões. Lobo Carneiro (Exatas), Celso Furtado (Humanas) e Johanna Döbereiner (Biológicas) foram os cientistas escolhidos.

2009: Foram premiadas 38 teses das então 44 áreas. Houve 487 teses inscritas. Leopoldo Nachbin (Exatas), Mario Pedrosa (Humanas) e Maurício Rocha e Silva (Biológicas) foram os homenageados. Nessa edição, o Instituto Paulo Gontijo (IPG) premiou a melhor tese de Astronomia/Física.

2010: Foram 43 premiados das então 47 áreas. Houve 399 inscrições. José Leite Lopes (Exatas), Lúcio Costa (Humanas) e Carlos Chagas (Biológicas) foram homenageados.

2011: Foram 45 premiados das então 48 áreas. Simão Mathias (Exatas), Ruth Cardoso (Humanas) e Glaci Teresinha Zancan (Biológicas), foram homenageados.

2012: Foram 45 premiados entre 401 teses inscritas. Otto Richard Gottlieb (Exatas), Paulo Reglus Neves Freire (Humanas) e Emílio Marcondes Ribas (Biológicas) foram homenageados. Naquele ano também ocorreu uma edição extra, com 44 premiados.

2013: Um total de 48 teses premiadas, de 21 instituições. Foram inscritas 645 teses de 80 instituições. Na ocasião, foi entregue pela primeira vez o Prêmio Interfarma para dois selecionados nas áreas de Medicina, Odontologia, Farmácia, Enfermagem ou de Ciências Biomédicas (Genética, Fisiologia, Bioquímica, Farmacologia, Imunologia, Microbiologia, Parasitologia e Biologia Celular). Zeferino Vaz (Biológicas), Álvaro Alberto da Mota e Silva (Exatas) e Darcy Ribeiro (Humanas) foram homenageados.

2014: Com 48 premiados e 85 menções honrosas dentre 676 teses de doutorado inscritas por 21 instituições. Oswaldo Gonçalves Cruz (Biológicas), Mário Schenberg (Exatas) e Sérgio Buarque de Holanda (Humanas) foram homenageados.

2015: Foram 48 premiados e 86 receberam menções honrosas. Houve 735 teses inscritas por 86 instituições. Emílio Vanzolini (Biológicas), Aziz Nacib Ab'Sáber (Exatas) e Antônio Houaiss (Humanas), foram homenageados. A edição comemorou os 50 anos do Parecer Sucupira.

2016: Ao todo, 48 teses foram premiadas e 88 receberam menções honrosas. Houve 774 teses inscritas por 90 Instituições. Nise da Silveira (Biológicas), Ricardo de Carvalho Ferreira (Exatas) e Octávio Ianni (Humanas) foram homenageados.

2017: Foram 49 premiados entre 914 inscritos. Foram homenageados Vital Brazil (Biológicas) Casimiro Montenegro Filho (Exatas) e Aurélio Buarque de Holanda (Humanas). Em 2017, o Prêmio CAPES contou com uma nova parceria: a Comissão Fulbright Brasil concedeu um prêmio especial à tese que tratasse das relações entre Brasil e Estados Unidos.

2018: Com 939 trabalhos inscritos. Amílcar Vianna Martins (Biológicas), Alberto Luiz Galvão Coimbra (Exatas) e Rubens Brandão Lopes (Humanas) foram os homenageados.

2019: As 1.142 inscrições, marcaram um recorde histórico. Os nomes das três categorias do Grande Prêmio homenagearam os pesquisadores Oscar Sala (Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar), Graziela Maciel Barroso (Ciências da Vida) e Josué de Castro (Humanidades).