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Ex-bolsista da CAPES faz análise sobre impacto cultural de megaeventos

Publicado: Segunda, 16 Abril 2018 14:47 | Última Atualização: Segunda, 23 Abril 2018 16:50

Eventos como as Olimpíadas impulsionam o desenvolvimento das cidades-sedes? Para a pesquisadora Ana Maria Vieira Fernandes, os acontecimentos de grande porte trazem consequências pouco animadoras para as populações locais. No caso de Barcelona, na Espanha, os Jogos Olímpicos de 1992 teriam gerado especulação imobiliária e esvaziamento do patrimônio cultural. No Rio de Janeiro, a situação pode se repetir.

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Ana Maria Fernandes estuda o impacto cultural de megaeventos como as Olimpíadas (Foto: acervo pessoal)

A análise faz parte do estudo recente Mega-events and cultural heritage – Rio 2016: A new Barcelona 1992?. Nele, a professora de turismo e geografia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC/ Campinas) discute as estratégias das cidades que buscam se posicionar de forma competitiva no mercado global visando atrair investimentos e turistas. Publicado em 2017 na coletânea internacional Le Spetacle du Patrimoine, o capítulo reflete sobre o legado dos Jogos Olímpicos para a capital catalã e projeta cenários para o caso brasileiro.

O tema da transformação da cultura em produto de consumo do turismo já está presente em uma obra anterior da autora. No artigo “Turismo e redução narrativa: uma discussão à luz do patrimônio mundial modernista de Barcelona”, de 2016, ela questiona o título de Patrimônio Mundial, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Ana Maria realizou o estudo para o artigo de 2013 a 2014, em Barcelona, durante o período como bolsista do Programa Doutorado-sanduíche no Exterior (PDSE), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Desigualdade social e espacial
No modelo descrito pela geógrafa, a gestão pública adota o empreendedorismo urbano e a promoção do patrimônio cultural como um recurso turístico – e, portanto, como uma mercadoria. Nessa perspectiva, a cidade deve se tornar um centro internacional de consumo e lazer, passando por grandes projetos de reestruturação – como renovação de portos, instalação de equipamentos culturais, de esporte e de lazer, abertura e alargamento de avenidas, obras de mobilidade urbana.

“Guiada pela mesma ideologia do planejamento estratégico, a cidade do Rio de Janeiro se espelhou em Barcelona para impulsionar uma renovação urbana em seu espaço a fim de sediar os Jogos Rio 2016”, aponta a professora. “O capítulo do livro discute como essas estratégias foram desenvolvidas e também alguns resultados. Muitas ações somente reforçaram as desigualdades socioespaciais e as contradições existentes na capital carioca”, acrescenta.

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Recinte Modernista de Sant Pau, uma das localidades estudadas na pesquisa de Ana Maria (Foto: acervo pessoal)

Segundo a pesquisadora, as publicações trazem exemplos dos resultados desse modelo de gestão: especulação imobiliária, gentrificação, expulsão dos moradores tradicionais, mudança de significados do patrimônio cultural. “Os textos apresentam dados para comprovar que o posicionamento estratégico da cultura na renovação urbana e no desenvolvimento do turismo das cidades é um processo hegemônico: pode ocorrer tanto em escala global como local. Espetaculariza as cidades e traz diversos impactos para as suas respectivas populações”, explica.

Doutorado-sanduíche
A ideia de estudar na Espanha surgiu no doutorado em geografia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Bacharel em Turismo, Ana Maria conhecia bem o idioma espanhol. Sua orientadora na Unicamp tinha contato com uma professora na Universitat de Barcelona cujos temas de pesquisa tinham afinidade com o trabalho que queria desenvolver.

“O processo de candidatura e seleção foi claro”, observa. “Escrevi meu projeto de pesquisa, que foi aceito pela prof. Nuria [sua orientadora em Barcelona], e continuei os trâmites. Minhas dúvidas foram sanadas pela responsável técnica da CAPES, até mesmo quando eu estava fora do Brasil”. Um ano após o início do curso, Ana foi contemplada com uma bolsa do Programa de Doutorado-sanduíche no Exterior.

Na Universitat de Barcelona, Ana Maria cursou duas disciplinas. “Foi essencial para entrar em contato com os catalães. Conheci novas áreas de estudo e bibliografias. Até hoje tenho contato com um professor”. Além das aulas, a rotina incluía reuniões com a orientadora a cada três semanas e estudos diários numa sala própria ou na biblioteca. Seguindo sugestão da orientadora, fez um curso de espanhol na universidade. “Melhorei em gramática e conversação, e ainda fiz amigos de vários países”.

Mesmo sendo proficiente em espanhol, a língua foi o maior desafio. “As aulas eram em catalão. Eu podia fazer perguntas e escrever meus trabalhos em espanhol, mas as respostas eram sempre no idioma local. Não foi fácil, mas aprendi melhor a cultura e sou capaz de entender a língua”, relatou.

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Turistas caminham no Park Guell, em Barcelona (Foto: acervo pessoal)

A experiência foi decisiva para a pesquisa de doutorado. Inicialmente, Ana Maria queria estudar Paisagem Cultural, uma categoria do Patrimônio Cultural da Unesco, pois o Rio de Janeiro tinha sido o primeiro centro urbano a receber a classificação. O estágio em Barcelona redirecionou suas pesquisas. Ao ter contato com moradores, pesquisadores e técnicos, ela percebeu os rastros do chamado “modelo Barcelona” 25 anos após sua aplicação e decidiu investigar os efeitos das Olimpíadas.

“Essa vivência me inquietou e me permitiu levantar uma série de questões que direcionaram o meu olhar para outros caminhos de pesquisa”, pontua. “Além de propiciar a realização de disciplinas e pesquisas na universidade, o estágio doutoral se transformou em um trabalho de campo sobre renovação urbana, turismo e patrimônio cultural mundial na cidade, elementos de análise da minha tese”, detalha a pesquisadora.

Para os interessados em tentar um estágio de doutorado no exterior, Ana Maria Fernandes tem algumas recomendações. Segundo ela, é necessário pesquisar muito sobre cidade e a instituição de destino, e quais os professores pesquisam na área de interesse. “Isso evita estranhamentos que desviem o foco na pesquisa”, afirma. A duração do estágio também deve ser considerada com cuidado. “Seis meses é o período mínimo para vivenciar o lugar e o estágio intensamente. Sugiro também que os orientadores façam uma visita, para promover atividades acadêmicas”.

Em 2016, a CAPES concedeu 2251 bolsas de doutorado-sanduíche no exterior. Quase uma em cada dez (222) se destinou à Espanha. As áreas preferidas foram Ciências Humanas (56 bolsistas) e Ciências Exatas e da Terra (36). Em terceiro lugar empataram Ciências Sociais Aplicadas e Ciências Agrárias, com 24 bolsistas cada.

Conheça o Programa de Doutorado-sanduíche no Exterior (PDSE).

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(Lucas Lopes - Brasília – CCS/CAPES)
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