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Estágio Sênior

Bolsista da CAPES publica estudo sobre abuso infantil em revista internacional

Publicado: Quarta, 13 Dezembro 2017 15:02 | Última Atualização: Sexta, 15 Dezembro 2017 12:46

As ocorrências de violência doméstica contra mulheres e abusos sexuais contra crianças estão relacionadas entre si, sugere um artigo da pesquisadora brasileira Zelimar Bidarra, publicado na revista holandesa Child Abuse & Neglect. Ex-bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Zelimar produziu o estudo entre 2014 e 2015, quando participou do Programa Estágio Sênior no Exterior, na Universidade de Laval, no Canadá.

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Como encerramento do estágio de pesquisa, a professora brasileira realizou uma conferência para a comunidade de pesquisadores canadenses (Foto: acervo pessoal)

No artigo Co-occurrence of intimate partner violence and child sexual abuse: Prevalence, risk factors and related issues, a professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) revisou literatura especializada que evidencia a coocorrência (concomitância) dos dois tipos de violência. O artigo está disponível no Portal de Periódicos da CAPES (antes de acessar, verifique o conteúdo do Portal de Periódicos disponível para sua instituição).

Em outras palavras, a pesquisa reuniu e analisou diversos estudos que relacionam a ocorrência de violência contra a mulher com abusos sexuais contra crianças nos mesmos ambientes. “Até a publicação do artigo, não se localizou outra publicação que tivesse realizado a revisão no sentido buscar evidências e fatores de risco presentes na correlação/coocorrência entre violência conjugal (no Brasil, comumente denominada de violência doméstica contra a mulher) e o abuso sexual de crianças e adolescentes de natureza intrafamiliar”, afirma.

Objetivos
A intenção é construir um mapa dos estudos, de modo a apresentar o acervo de conhecimento disponível sobre o tema e identificar questões que precisam ser abordadas em pesquisas futuras. Outra finalidade do artigo é auxiliar profissionais de serviço social a identificar a concomitância das agressões. “O tema da coocorrência entre violências é bastante recente nas pesquisas de caráter internacional. Os primeiros registros das publicações dessa literatura datam dos anos 1980”.

A partir dos resultados obtidos, a pesquisadora destaca da importância das correlações de violência doméstica contra mulheres e abusos sexuais contra crianças serem enxergados pelos profissionais que atuam com as problemáticas decorrentes das violências, desde profissionais de segurança pública a profissionais de saúde. “O manuseio cuidadoso da literatura mostrou-nos o quão invisível é a concomitância entre violências para aqueles técnicos que se encontram nos serviços de atendimentos por segmento populacional, das rotinas setoriais das políticas públicas. Como consequência dessa invisibilidade temos uma persistência desses tipos ocorrências, dado que não se atua preventiva e nem curativamente sobre elas. Ou seja, contingentes importantes de pessoas vitimadas pelas coocorrências entre violências não são identificadas como vítimas e não contam com espaços institucionais para processarem suas requisições”, conta.

Zelimar ressalta que o fenômeno é agravado quando se trata de crianças e adolescentes que estão expostos direta ou indiretamente à violência intrafamiliar praticada por um cuidador ou responsável. “Sem a devida e a acurada identificação dos processos desencadeados pelos sofrimentos inerentes às adversas experiências das violências sofridas, muitos crescem e se tornam adultos com alta probabilidade de reproduzir em suas relações interpessoais as práticas de uma sociabilidade mediada pela violência.”

Estágio no exterior
O artigo originou-se da interseção entre o interesse de pesquisa da professora Geneviève Lessard, supervisora do estágio de pesquisa, sobre crianças expostas à violência conjugal (intimate partner violence) e o objeto de pesquisa de Zelimar, a comparação entre as estruturas das políticas de atendimento às crianças vítimas de violência sexual do Brasil e da Província do Québec (Canadá). “As pesquisas e estudos sobre a violência sexual contra a infância em caráter internacional destacam a prevalência do caráter intrafamiliar dessa violência. Em sendo assim, uma importante indagação passou a ocupar os debates travados entre mim e Geneviève Lessard com relação às possíveis evidências e fatores que contribuem para a simultaneidade de violências no ambiente intrafamiliar. Daí, o desafio consistiu em localizar e demonstrar essas evidências na literatura internacional, sob a forma de artigos científicos, publicados na última década (no caso de 2003 a 2013) em periódicos revisados por pares e que estivessem armazenados nas principais bases de dados internacionais das áreas das ciências sociais aplicadas, ciências humanas, ciências da saúde e ciências jurídicas”, explica.

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Zelimar produziu o estudo entre 2014 e 2015, quando participou do Programa Estágio Sênior no Exterior, na Universidade de Laval, no Canadá (Foto: acervo pessoal)

Para ilustrar a importância do estudo desenvolvido, também como encerramento do estágio de pesquisa, a professora brasileira realizou uma conferência para a comunidade de pesquisadores sobre o tema que integram o quadro de professores da Université Laval (saiba mais).

Apoio da CAPES
O desenvolvimento da pesquisa foi apoiado pela CAPES, mediante a concessão de bolsa de estudo na modalidade de Estágio Sênior de pesquisa no exterior no período de março de 2014 a fevereiro de 2015. O Estágio de Pesquisa foi realizado no “Centre de Recherche Interdisciplinaire sur la Violence Familiale et Violence Faite aux Femmes (CRI VIFF)”, nas dependências da Universidade de Laval, na cidade do Québec, Canadá. A pesquisa que culminou na publicação do referido artigo teve como título: Análise sobre as perspectivas da intervenção e a estruturação da rede de atendimento, no circuito da violência familiar e sexual contra crianças e adolescentes, estabelecidas pelas políticas públicas de Assistência Social e de Saúde do Brasil e da província do Québec (Canadá).

O trabalho no exterior permitiu a pesquisadora brasileira criar vínculos institucionais com a academia canadense. “Das tratativas para realizar estágio de pesquisa na Université Laval resultou o convite para que eu ocupasse a condição de Professeure Associé, modalidade de professora visitante, da Faculté de Sciences Sociales/École de Service Social da Univesité Laval no período 2013 a 2016. Desde a realização do Estágio de Pesquisa, integro a Equipe de Pesquisadores do CRI VIF“, afirma.

Na realização do doutorado, Zelimar já havia recebido apoio da CAPES, mediante a concessão de bolsa de estudo na modalidade do PICDT-Unioeste. “Também obtive a concessão de bolsa de pesquisa para a realização do pós-doutorado, por meio de um convênio entre a Fundação Araucária-PR e CAPES. Na sequência, em uma nova oportunidade, a CAPES concedeu-me a bolsa de pesquisa para o estágio sênior de pesquisa. Assim, posso dizer que a agência teve um importante e decisivo papel no percurso do meu aperfeiçoamento como pesquisadora, concretizado em um pouco mais de uma década, entre a realização do doutorado (2004) e o estágio sênior de pesquisa”, ressalta a ex-bolsista.

Próximos passos
Desde o retorno ao Brasil, após a finalização do estágio sênior de pesquisa, Zelimar tem se dedicado ao tema da coocorrência entre violências. Um dos trabalhos tem sido a coordenação de uma equipe multiprofissional que atua para a constituição de políticas públicas que constituem a Rede Intersetorial de Proteção Social (RIPS) do município de Toledo (PR). “Com esse trabalho temos conseguindo pactuar, especificar e colocar em funcionamento protocolos e fluxos de atendimento que se gestam a partir da ação concertada.”

A pesquisadora também mantem interlocução acadêmica com os quadros da universidade canadense. “Encontra-se em fase de desenvolvimento uma pesquisa apoiada CNPq que tem como escopo a busca pela melhor síntese entre capacidade de identificação e a capacidade de atenção profissional qualificada, que supera fatores inibidores, para os atendimentos adequados de casos de violências que acometem crianças e adolescentes”, conclui.

(Lucas Lopes e Pedro Arcanjo – Brasília – CCS/CAPES)

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