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IODP – Expedição 369

Diário 2 - Adaptação

Publicado: Terça, 10 Outubro 2017 20:08 | Última Atualização: Terça, 24 Outubro 2017 16:28

Adaptação
Chegamos no primeiro site de perfurações. A semana foi de adaptação à vida no mar, e eu que pensava que seria um trabalho de observar e escrever sobre os outros, esqueci que eu também teria que me adaptar ao turno noturno, ao balanço do mar, aos espaços pequenos e repetitivos. Somos brasileiros, americanos, ingleses, franceses, filipinos, chineses, japoneses, italianos, alemães e coreanos. Estamos todos nos conhecendo, não só uns aos outros, mas a nós mesmos neste outro ambiente.

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(Foto: Takashi Hasegawa)

Essa semana também conhecemos o navio inteiro. Como é produzida a água de todos os dias, nosso aquecimento, como é mantido o incrível maquinário de perfuração. Andamos por pontes labirínticas e salas que me lembraram filmes de Terry Gilliam e Jean-Pierre Jeunet, monocromáticas, cheias de relógios e encanamentos complexos. Conhecemos os responsáveis pela manutenção do navio, pessoas experientes que balanceiam os pesos, conhecem os ventos e os sons que atravessam cada parafuso que nos mantêm flutuando. Subimos e descemos escadas, cujos vãos revelam as ondas que nos cercam. Vimos golfinhos, que ainda não aceitaram posar para a câmera.

A primeira perfuração
A chegada dos primeiros tubos de sedimentos foi cheia de expectativas. Houve até uma competição de quem adivinharia a hora em que seriam retirados, e a cada tubo vazio, teríamos que esperar uma hora pelo próximo. Só após duas recepções frustradas, a valiosa “lama” chegou em abundância.

Os laboratórios começaram a receber os primeiros sedimentos, que são previamente endereçados para cada pesquisador e equipe. Ao chegar, as amostras passam por procedimentos delicados e precisos, como a retirada da água, que não pode entrar em contato com o oxigênio para que mantenham suas propriedades cheias de informações; a captação dos gases, secagem, a lavagem, que parece soltar só barro, mas ao atravessar telas de diferentes aberturas revelam fósseis de foraminíferas, organismos unicelulares com dezenas de milhares de espécies.

A semana se encerra com lua cheia e todos muito ocupados. Por aqui não tem pausa, e aos poucos as ideias e aprendizados tomam forma.

Histórico
Expedições de perfuração acontecem desde o final dos anos 50, quando o Projeto Mohole penetrou a crosta terrestre com a intenção de atingir o manto. Este projeto provou que perfurações do subsolo oceânico seriam possíveis. Em seguida, o navio Glomar Challenger, navegando 96 léguas e perfurando 624 sites, permitiu a verificação da teoria das placas tectônicas, a descoberta de que a Antártida é coberta de gelo há 20 milhões de anos e que o Mar Mediterrâneo secou entre 5 milhões e 12 milhões de anos atrás.

Desde 1983, o navio JOIDES Resolution navega com pesquisadores do mundo todo para estudar as dinâmicas passadas do planeta através de perfurações profundas nos subsolos oceânicos. As expedições já permitiram a coleta das primeiras evidências oceânicas do limite Cretáceo-Paleogeno (momento em que o meteoro responsável pela extinção dos dinossauros atingiu o planeta) e também a definição do mais longo registro de variações climáticas naturais. O navio possui laboratórios e máquinas especiais para processar as amostras coletadas, permitindo análises que podem trazer respostas sobre o clima, as atividades vulcânicas, as placas tectônicas e os movimentos das águas, há milhões de anos.

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Cristiane Delfina
Mestra em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp e master of arts em documentary practice pela Brunel University London, em projeto financiado pelo programa de bolsas britânico Chevening. Realizou documentários no Brasil, Inglaterra e Islândia, participando de festivais nacionais e internacionais, entre os quais a mostra VerCiência e Cannes Short Film Corner, para o qual levou o seu documentário A Mulher Original, sobre a arqueóloga Niède Guidon. Este filme integrou também parte do seu projeto de mestrado no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. Foi selecionada, em julho de 2017, pelo edital Capes-IODP, para ser a primeira agente de divulgação brasileira a participar de uma expedição marítima do programa Expedição 369-Australia Cretaceous Climate and Tectonics, tema desta coluna nas próximas oito semanas.

Portfolio cristianedelfina.com

Acompanhe o Diário de Bordo da expedição IODP 369.

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