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Pesquisador propõe nova classificação de gatos-palheiros

Publicado: Quarta, 05 Agosto 2020 10:19 , Última Atualização: Terça, 08 Setembro 2020 14:24

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Graduado em Ciências Biológicas pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), Fabio Oliveira é mestre e doutor na área pela mesma intuição. Ao concluir seu doutorado, o pesquisador revelou uma nova classificação, mais completa, para os gatos-palheiros.

Fale um pouco sobre o seu trabalho.
Após meu doutorado, intitulado “Revisão Taxonômica de Leopardus Gray 1842 (Carnivora, Felidae)’’, eu formei uma parceria com o Dr. Anderson Feijó da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e o Dr. Jilong Cheng do Institute of Zoology, da Chinese Academy of Sciences. Juntamos esforços para compilar o máximo de informações possíveis sobre o gato-palheiro, também conhecido como gato-dos-pampas. Esse animal é um felídeo de pequeno porte (± 3 kg) típico de áreas de vegetação aberta da América do Sul.

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Como se deu seu interesse em trabalhar com o assunto?
A ideia desse projeto surgiu a partir do meu doutorado que teve o objetivo de revisar a classificação de todas as espécies de gatos silvestres de pequeno e médio porte do gênero Leopardus, grupo que inclui, por exemplo, a jaguatirica, o maracajá e os próprios gatos-palheiros. Os gatos-palheiros são animais relativamente pouco conhecidos, com uma variedade de formas (especialmente de pelagem) ao longo da América do Sul e com história taxonômica tradicionalmente confusa e conflitante.

E por que estudar os gatos-palheiros em específico?
Ao longo dos anos o gato-palheiro foi objeto de classificações conflitantes e, até recentemente, uma espécie (Leopardus colocola) com sete subespécies era reconhecida. Nunca havia sido feito um estudo taxonômico (identificação e classificação) integrativo para esse grupo. As múltiplas linhas de evidência derivadas dos conjuntos de dados de morfologia, molecular, biogeografia e nicho climático que reunimos e estudamos convergiram para o reconhecimento de cinco espécies monotípicas, ou seja, não divididas em subespécies. São elas: Leopardus colocola, do Chile Central a oeste dos Andes; L. pajeros, do centro e sul da Argentina e extremo sul do Chile; L. garleppi, encontrado desde o Equador até o norte do Chile e noroeste da Argentina; Leopardus braccatus, do Brasil Central, Paraguai e leste da Bolívia; e L. munoai, do Uruguai, sul do Brasil e nordeste da Argentina.

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Qual o objetivo da pesquisa?
O objetivo principal da pesquisa foi verificar quantas e quais espécies de gato-palheiro existem de fato.

Qual a importância do seu trabalho para a realidade brasileira?
Um dos pontos principais é que para o Brasil são reconhecidas agora duas espécies de gato-palheiro, ao invés de uma só. Uma delas, Leopardus braccatus, caracteriza-se por ter coloração geral do corpo marrom com patas inteiramente negras e é encontrada nas áreas de vegetação aberta (Cerrado, Pantanal etc.) do Brasil Central, desde o Maranhão até o Mato Grosso do Sul e oeste de São Paulo. A outra, L. munoai, que no Brasil é encontrado apenas no pampa gaúcho e tem como uma das características diagnósticas as solas das patas serem pretas. Outro ponto é a necessidade de reavaliar seus respectivos status de ameaça de extinção, uma vez que houve mudança no status taxonômico. É bastante provável que a situação dessas espécies seja bastante preocupante, pois elas habitam dois biomas – Cerrado e Pampa – que sofrem grande influência humana, além de terem outras ameaças como a caça retaliatória, as doenças e a predação por cães domésticos. Um terceiro ponto que considero importante é a divulgação do que conhecemos sobre os gatos-palheiros para a população em geral, de fora do mundo acadêmico, que poderá saber mais sobre a biodiversidade e ter uma ideia de como é o trabalho de zoólogo e/ou de um taxonomista, por exemplo. Isso também servirá para chamar atenção do patrimônio que os museus de história natural possuem em suas coleções científicas e que geralmente não estão diretamente acessíveis a todos.

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O que ele traz de diferente daquilo que já é visto na literatura?
Antes vários esquemas taxonômicos diferentes foram propostos e o último deles (2017) reconheceu uma única espécie de gato-palheiro com sete subespécies. Nosso trabalho, por outro lado, é o mais amplo em número de espécimes estudados (142 ao todo) ao longo de toda a distribuição geográfica e é o estudo mais robusto graças às múltiplas linhas de evidência (dados morfológicos, moleculares, biogeográficos e de nicho climático). Dessa forma, reconhecemos para os gatos-palheiros cinco espécies plenas, sem subespécies.

Qual a importância do apoio da CAPES?
A CAPES foi fundamental em conceder a bolsa de doutorado, o que possibilitou dedicação exclusiva para o desenvolvimento da minha pesquisa com a taxonomia dos felídeos.

Quais são os próximos passos?
Entender as diferenças na biologia de cada espécie de gato-palheiro (preferência de habitat, reprodução, dieta etc.) e publicar as revisões taxonômicas das demais espécies do gênero Leopardus e de outros mamíferos neotropicais.

(Brasília – Redação CCS/CAPES)
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